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Agência Alagoas - AL
03/05/2010 - 07:00

Aurélio projetou Alagoas no Estado e no Brasil

Para a artista plástica e amiga Tânia de Maya Pedrosa, o Estado de Alagoas tem que reconhecer o valor do mestre dicionarista

Maryland Wanderley

Adailson CalheirosAdailson Calheiros

Tânia Pedrosa recorda os dias que passou ao lado do amigo

A artista plástica Tânia de Maya Pedrosa, amiga do dicionarista, ensaísta, crítico literário e poeta alagoano Aurélio Buarque de Holanda, que se tornou conhecido pelo dicionário da Língua Portuguesa que escreveu e recebeu o seu nome, conta a convivência com o Mestre, como ela o chama carinhosamente, e fala sobre a personalidade deste poeta que completaria 100 anos nesta segunda-feira. Ela conta que o conheceu na década de 60, quando ele já estava editando o dicionário da Língua Portuguesa mais lido e conhecido no Brasil e exterior. Do dicionarista, ela ganhou o estímulo pela literatura e herdou quadros e livros de arte popular.

Quando recorda os dias que passou ao lado do amigo, Tânia não esconde a emoção e diz que ele era uma pessoa bem-humorada, educada, clássica, mas que agia com simplicidade e que se incomodava com as injustiças sociais. “Ele não admitia falta de caráter, de educação ou agressividade. Foi um bom pai, bom marido e se dedicou somente à família, aos poucos amigos e ao trabalho, a exemplo da elaboração do dicionário. A família unida reforçou a quietude dele”, diz.

A artista plástica lembra ainda com saudade que Aurélio gostava de viajar para a França, Itália e Portugal emorou dois anos no México. Também gostava de recitar poesias, chamando-a muitas vezes para recitarem juntos. “Ele me chamava de mestra – como ela também o chama até hoje – e gostava de recitar as obras de Cecília Meirelles e outros autores. Ele tinha uma memória extraordinária e radiográfica”, destacou a amiga que, apesar de ter se formado em Direito, nunca atuou na área, tendo sido incentivada pelo dicionarista a enveredar pela literatura.

“Já gostava de literatura e ele abriu meus caminhos, sugerindo livros e incentivando a tradução de Baudelaire”, afirmou. De acordo com ela, o dicionarista era um homem clássico que gostava da arte popular, como manifestações folclóricas e folguedos. “Ele tanto sabia tomar café em um restaurante bom quanto no mercado e gostava de assistir aos folguedos na casa do Théo Brandão. Mestre Aurélio primava pela lisura dos seus atos e não tinha máscara, era bom porque era bom e quando não gostava de uma pessoa, tinha a delicadeza de não deixá-la perceber, apesar do seu jeito sisudo”, salientou a amiga, dizendo que ele balanceava com lazer as inúmeras horas de dedicação à literatura.

“Ele gostava das noites de Jaraguá, onde conversava com os amigos intelectuais”, disse Tânia. Segundo ela, Aurélio também nadava e remava, como forma de entretenimento. Tânia ressalta que o mestre Aurélio sempre foi respeitado no mundo e ainda hoje o seu dicionário é consultado em muitos países. Ele conviveu com grandes nomes do meio literário e cultural e, por dominar a gramática, revisou livros de romancistas consagrados e autores como Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira.

“Manuel Bandeira estava escrevendo um dicionário e pediu a colaboração de Aurélio, que já estava morando no Rio de Janeiro, ensinando na Escola Estadual D. Pedro II”, reforçou Tânia Pedrosa. .

A artista plástica conta que a esposa do dicionarista, Marina Baird Ferreira, era contadora de um banco de Londres e tradutora de inglês e francês para as revistas Cigarra e O Cruzeiro. Nesse período, Aurélio trabalhava diuturnamente na edição e revisão de textos e, em sua equipe, contava com a esposa e a colaboradora Margarida dos Anjos.

Após um tempo, Aurélio Buarque chamou Geovano Mafra para ajudar no trabalho. “Ele trabalhou até morrer, em 1989, apesar de acometido pelo mal de Parkinson”, recorda a artista plástica. Segundo ela, mestre Aurélio ajudou a colocar o escritor alagoano Lêdo Ivo na Academia Brasileria de Letras, uma vez que ele representava o país no exterior, no que diz respeito à divulgação literária.

Comemoração – As atividades comemorativas do centenário de nascimento do autor do mais popular dicionário da língua portuguesa serão encerradas nesta segunda-feira (3), com o lançamento do Espaço Aurélio Buarque de Holanda, às 18h, no Museu Palácio Floriano Pixoto. “Sonhamos em colocar o busto dele na Academia Alagoana de Letras, mas não conseguimos. Pedi ao Osvaldo Viégas (secretário de Estado de Cultura) para colocar o busto dele no Museu e será colocado no Espaço Aurélio Buarque de Holanda”, disse Tânia de Maya Pedrosa.

O autodidata Aurélio Buarque nasceu em Passo de Camaragibe, em 1910, mas a família se mudou para a capital em 1923, indo morar no Rio de Janeiro 15 anos depois. Na avaliação da amiga, o dicionarista era um amante compulsivo das letras e Alagoas tem a obrigação de reconhecer seu valor. “Ele projetou o Estado no país e no exterior em uma época em que Alagoas estava em baixa. Não há uma só embaixada ou biblioteca de renome que não tenha o dicionário dele”, concluiu a artista plástica, deixando visível que a amizade é extensiva à família, incluindo os filhos Maria Luísa e Aurélio Baird Ferreira.

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